A credibilidade das pesquisas de intenção de voto sofre uma ameaça estrutural contínua. A pulverização de consultas agrava a situação rapidamente. A multiplicação de metodologias divergentes das empresas de estatística escancara uma dificuldade de conquistar eleitor. Essa manipulação deliberada direciona a narrativa do voto útil de forma enganosa. O rumo da eleição acaba alterado com base em índices forjados, deslocando fatias de até 10% do eleitorado.

A estratégia tem um objetivo: atrair o voto útil, quando um cidadão abre mão do seu candidato favorito para apoiar uma opção viável que impeça a vitória de um adversário indesejado. Sem um cenário estatístico nítido, calcular essa jogada se torna um desafio.

Além disso, existem sérios problemas no uso desse tipo de apelo. Trata-se de um instrumento tão antigo quanto questionável. Primeiro, porque impede o eleitor de votar no seu candidato preferido. Segundo, porque impede que as ideias e propostas do candidato preferido ganhem força no debate público.

Buscar o voto útil numa campanha eleitoral faz parte do jogo. Vender a ideia de que é uma obrigação, não é. O voto útil funciona como um funil. Em vez de alargar o debate político, estreita-o.

É por isso que a primeira volta das estaduais do próximo domingo deveria ser tratada como um momento de afirmação, não como um referendo ao medo. Na primeira volta, o voto útil é um ato de autocensura política: não se vota no que se pensa, vota-se no que “dá”. É por isso que vejo o voto útil como algo inútil neste momento, um problema agravado pela dispersão dos dados amostrais.

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