Dona Maria de Jesus tem pequeno comércio de mercearia em Brejo, interior do Maranhão. Quando perguntamos o que ela esperava de 2026, a resposta não teve nada a ver com o Palácio dos Leões, sede do governo do estado: “Estou planejando ampliar o comércio aqui.” Ela até pensa na eleição. Mas a eleição não pensa nela. Ou melhor: ainda não apareceu quem fale a língua do boleto dela.

De Jesus é uma entre 3,3 milhões no estado.

Na pesquisa Quaest/TV Mirante divulgada nessa segunda-feira, 24, a primeira pergunta eleitoral do questionário — a de número 7, feita antes de qualquer estímulo, antes de qualquer cartela com nomes de candidatos — revelou que 64% dos eleitores maranhenses simplesmente não souberam dizer em quem pretendem votar para governador. Sem ajuda, sem empurrão, sem lembrete. Sessenta e quatro por cento. Traduzindo: são cerca de 3,3 milhões de maranhenses que, hoje, não verbalizam espontaneamente um candidato ao governador. Se não verbaliza, o voto não é consolidado. É fumaça, não fogo.

Esse número deveria ser o centro de qualquer análise sobre 2026. E não é por capricho metodológico. É por um motivo que qualquer eleitor entende na hora: a urna eletrônica funciona por voto espontâneo. Ninguém chega na cabine e encontra uma cartela com os nomes dos candidatos para escolher. O eleitor digita um número. Se ele não sabe esse número, se não tem esse nome grudado na cabeça, o voto estimulado das pesquisas é cenário, não sentença. É temperatura, não diagnóstico.

Mas vamos supor que esse argumento não convença. Vamos supor que alguém diga: “Isaías, esses 64% são frouxos, muita gente ali vai acabar lembrando na hora”. Tudo bem. Vamos deixar o espontâneo de lado e olhar outro dado da mesma Quaest: 37% dos eleitores afirmam que ainda podem mudar de voto. São quase 2 milhões de maranhenses que já declararam uma intenção de voto e, mesmo assim, dizem que não bateram o martelo. Gente que respondeu um nome ao entrevistador, mas com a convicção de quem escolhe sabor de sorvete na fila — sabe que pode trocar antes de chegar no caixa.

Somando as duas coisas, o que temos é o retrato de uma eleição desenhada, mas não decidida. Os protagonistas existem. Os campos estão montados. Eduardo Braide de um lado, Orleans Brandão de outro. Mas entre o campo montado e o voto depositado na urna existe um oceano de incerteza que nenhuma manchete de pesquisa deveria esconder.

A dona Maria de Jesus não está sozinha. Ela faz parte de uma massa gigantesca de maranhenses que reconhece os nomes do jogo, mas ainda não fechou emocionalmente essa conta. Gente que está mais preocupada com o preço do gás, com os boletos do fim de mês, com a vaga do filho na creche do que com a disputa majoritária que vai escolher o próximo governador. Essa gente vai decidir a eleição. Mas vai decidir mais perto da urna, quando o barulho da campanha finalmente competir com o barulho da vida real.

Quem olha para agosto e enxerga outubro está confundindo ensaio com estreia. As pesquisas mostram tendência, inclinação, ponto de partida. Não mostram chegada. E quem garante que sabe o resultado de uma eleição em que 3,3 milhões ainda não sabem dizer um nome e quase 2 milhões admitem que podem mudar está, no mínimo, mal informado. Ou, no máximo, vendendo certeza que não tem.

A eleição de 2026 ainda não começou para quem vai decidir 2026. E a dona Maria de Jesus continua fazendo conta para ampliar o comércio, sua única preocupação atualmente.

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